Aquela fora a primeira dose. Mas não foi uma primeira qualquer. Foi uma
primeira de causar inveja ao próprio Bukowski. Talvez um exagero. O fato é, que
enquanto sorvia a frugalidade contida em seu copo de uísque, Jonas perdia a consciência
que adquirira ao longo de seu árduo dia a dia. Pensava nas ambições que perdera
com o passar do tempo, afinal, que há de esperar um reles empregado de uma
fábrica de caixas? Que sonhos virão a se concretizar, quando o movimento mais
complexo de sua rotina era virar-se e montar mais um cubo de papelão? Não.
Jonas não via mais na jornada de Ulisses um sentido.
Esse niilismo vital é que dava o mote à desventura tão grande. Mas então,
o que mantinha o jovem e bucólico Jonas sob a proteção de Gaia? O mesmo motivo
que manteve há séculos atrás o doce e meigo príncipe shakespeareano da
Dinamarca. Talvez nem tão doce. Tampouco meigo. Outras características em comum
com nosso jovem plebeu.
A plebe reserva a seus desgostosos filhos o pragmatismo da vida. Disso,
ele sabia muito bem. Apanhar do médico ao nascer, sofrer na escola na infância,
morrer de amores na adolescência... Aliás, Jonas sempre tivera uma opinião
polêmica acerca do amor. Para ele, o que há entre os seres humanos não se chama
amor. Chama-se posse.
E cada vez mais se sentia próximo à verdade. E a cada passo que dava em
direção à razão plena, deparava-se com a seguinte máxima: é a posse. Tudo o que
move o homem é o desejo de posse. O amor, esse tão abastado detentor da
motivação humana, não passa de um impostor. Impostor sim, pois utiliza de tal
sorrelfa, e finge ser dono de todos os romances românticos escritos entre um
século e outro, quando, na verdade, os pachorrentos escritores estavam tomados
de um sentimento tão distante do amor, quanto de seus objetos de veneração. O
homem deseja o poder. Quer ser o domador do sentimento alheio. Quer ter a
oportunidade de subjugar o outro, à medida que subjuga a si próprio. Asco. É
isso que Jonas sentia quando pensava neste usurpador.
Posto que aceitara a ciência desta ponderação, certa feita argumentara
ter resolvido todos os problemas da humanidade com esta descoberta.
Certo? Errara mais uma vez.
Maior que a incompreensão dos homens, é seu desejo de se deixar enganar,
por simples convenção. Medo. Jonas tinha era medo do amor, esse vilão que
assola a humanidade com toda a sua teatral conversação, e convence a todos de
que é o motivo pelo qual vivemos.
É o amor. Agora sim Jonas sentia-se próximo à verdade. E a cada passo que
dava em direção à razão plena, se deparava com a seguinte máxima: é o amor.
Tudo o que move o homem é o amor, e não há razão que nos distancie desta
verdade. A virtude plena não está em desmascarar este asqueroso vilão, mas sim,
em lutar contra ele.
Bem, nunca pensei em discutir com um fabricante de caixas, todavia, nunca
encontrei nenhum homem pleno de virtude a ponto de provar esta tese.
Mas, voltemos ao nosso ponto central: aquela fora a primeira dose.
Dizem os mais renomados poetas que o álcool costuma ser o amigo mais fiel
do homem. Um deles (Jonas nunca sabia os nomes de cor) chegou mesmo a escrever:
“O uísque é o cachorro engarrafado”. Ora, não é que o homem tinha razão? Mas o
que Jonas não sabia é que esse cachorro morderia sua própria mão.
Se o primeiro gole de uísque de um homem revelasse o despropósito que sua
vida veria adiante, certamente as clínicas de reabilitação alterariam suas
funções. Iriam vender balas de funcho. O que, aliás, não seria nada mal. Gosto
de balas de funcho, mas algo me diz que Jonas nunca fora um grande consumidor.
Pois bem, lá íamos nós nos afastando do enredo principal novamente.
Voltemos ao fulcro desta conversa: O Grande Fato.
Não é tão grande, deveras. Se o fosse, todos nós saberíamos, inclusive o
próprio Jonas, antes mesmo de acontecer. Afinal, o rapaz não saía de frente da
televisão. Aliás, a primeira dose veio durante um programa de auditório. Talvez
por isso a dose tenha descido por sua garganta com tamanha agilidade. Bem,
Jonas poderia ter bebido a garrafa inteira nesse dia; eu, ao menos, não o
culparia. Seria um grande subterfúgio.
O grande (megalomanias à parte) fato, deu-se naquele dia. Naquela dose.
Naquela poltrona. Jonas descobrira sua verdadeira vocação. E tinha tudo para
dar certo. Seria escritor.
Não te rias do homem. Confesso que, ao descobrir estes intentos, soltei
uma leve gargalhada em pensamento, mas mantive a postura e proferi a mais
famosa frase:
- Hum...
Frase curta, prolixa e muito profunda. Bem, penso que tenha escondido
minha gargalhada. Mas sim, Jonas abandonara a fábrica, comprara uma máquina de
escrever (não que isso tenha acontecido há muito tempo, mas alterei a história
e troquei o computador pela máquina de escrever, que é muito mais romântica) e
desde então tem passado seus dias a divagar através da escrita. Pobre Jonas...
Se soubesse o quanto era feliz compondo a infinidade de caixas que compunha
mensalmente... Agora? Compõe uma infinidade de poemas diariamente. Todos
reafirmando sua inutilidade ao mundo. Poemas que revelam seu alcoolismo, seu
fracasso no amor, sua imperícia com as coisas da vida.
***
Jonas enfim partiu ao mundo desconhecido de Hamlet. Foi-se, mordido pelo
próprio cão que criou. O cão que conheceu em meio aos aplausos de um programa
dominical. Ou não. Pensando bem, a razão pela qual Jonas disse adeus aos
empíreos humanos foi uma só: descobriu que nem o amor, nem a posse, nem
qualquer outro sentimento, conseguirá livrar o homem de sua mesquinhez. Fugir.
Nosso jovem plebeu preferiu fugir ao reino de Pasárgada, onde sabia ter grandes
amigos. O Reino de Bandeira; desse autor ele nunca esquecera o nome.