-Entenda, Moura, há muito que perdi a confiança no tempo...
-Do que está falando, meu caro? – retrucou o outro, quase incrédulo. –
Falávamos, há pouco sobre os amores da juventude, e agora, tu me vens com essas
filosofias de boteco? Francamente...
O riso sarcástico de Moura irritou o companheiro de conversa, mas não o
intimidou.
-Veja bem, preste atenção e verás que não fujo do assunto. Você mesmo,
Moura, sabe muito bem que já contamos mais de cem primaveras, se juntarmos
nossas vidas. Bem, sendo assim, há de concordar comigo que são muitas as
histórias que poderíamos contar a nossos filhos, quiçá a nossos netos...
-Isso, se tivéssemos, correto? – interrompeu o amigo, que ainda não se
compadecera da causa de Lúcius, e persistia com a ironia.
-Exato, mas por favor, permita-me continuar – pelo
tom, seu assunto era sério. – Durante todos esses anos, ao longo de todas essas
histórias, você acredita realmente que aquilo que chamamos de “tempo”,
efetivamente passou?
-Pronto, agora enlouqueceu de vez!
-Acalma-te! Vou te explicar detalhadamente minha teoria, e aí verás que
não estou louco. Atenta para o fato de que estamos nessa sala há alguns
minutos, que somados, são chamados de horas, dias, meses, anos, etc. Essas
denominações não passam de palavras que o Homem forneceu à natureza, porque ele
não consegue aceitar o fato de que é alheio ao ambiente que se transforma. Além
do mais, ele criou o tempo para poder controlar os seus semelhantes, para
dizer-se dono de si e da vida, para mensurar quanto pode durar uma guerra, uma corrida,
uma transa, uma discussão, uma propaganda política. Quando digo que o tempo é
uma invenção da humanidade e que efetivamente não existe, não estou
verbalizando desvarios. – nesse instante, Moura parara de caçoar do amigo e
ouvia atentamente – Minha teoria se comprova facilmente, é só me ouvir: olhe
para essas paredes. Há alguns anos elas eram lindas, hoje são velhas, caindo
pela ação do [que convencionalmente chamamos de] tempo. Nós deixamos nos iludirem
quando afirmamos que o que fez essas paredes envelhecerem foi o tempo que
passou. Não foi. O que fez essas paredes mudarem, perderem o brilho que tinham,
foi a pura ação microscópica da vida! Tudo muda, segundo a segundo. É a mudança
de Heráclito agindo nos dias de hoje, como se nos banhássemos nos rios da
Grécia Antiga, meu nobre amigo. Entramos e saímos desse rio, com frequência,
mas ele não muda porque o tempo passa. Ele muda por que é o princípio da vida. Se
não houvesse a contagem do tempo, o tempo deixaria de existir em nossa mente.
Nós só encaramos a temporalidade como algo real, a partir do momento que
aceitamos a escravização do relógio. Ou melhor, do criador do relógio.
Os olhos de Moura estavam estralados. Perplexo com a teoria de Lúcius,
tentou indagar:
-Mas como você encara tudo isso, frente às adversidades...
-Calma meus amiguinhos, trouxe um remedinho pra vocês!
A conversa foi cortada por Maria Lúcida, a enfermeira responsável pela ala
idosa do Hospital Psiquiátrico Santa Cruz.
