quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dois Cafés em uma tarde comum.

             Num dia como outro qualquer, os amigos de longa data estavam sentados à mesa, discutindo a filosofia cotidiana que não os levava a lugar algum, mas lhes tirava do lugar-comum. O café servido corroborava a discussão.

-Entenda, Moura, há muito que perdi a confiança no tempo...

-Do que está falando, meu caro? – retrucou o outro, quase incrédulo. – Falávamos, há pouco sobre os amores da juventude, e agora, tu me vens com essas filosofias de boteco? Francamente...

O riso sarcástico de Moura irritou o companheiro de conversa, mas não o intimidou.

-Veja bem, preste atenção e verás que não fujo do assunto. Você mesmo, Moura, sabe muito bem que já contamos mais de cem primaveras, se juntarmos nossas vidas. Bem, sendo assim, há de concordar comigo que são muitas as histórias que poderíamos contar a nossos filhos, quiçá a nossos netos...

-Isso, se tivéssemos, correto? – interrompeu o amigo, que ainda não se compadecera da causa de Lúcius, e persistia com a ironia.

-Exato, mas por favor, permita-me continuar    pelo tom, seu assunto era sério. – Durante todos esses anos, ao longo de todas essas histórias, você acredita realmente que aquilo que chamamos de “tempo”, efetivamente passou?

-Pronto, agora enlouqueceu de vez!

-Acalma-te! Vou te explicar detalhadamente minha teoria, e aí verás que não estou louco. Atenta para o fato de que estamos nessa sala há alguns minutos, que somados, são chamados de horas, dias, meses, anos, etc. Essas denominações não passam de palavras que o Homem forneceu à natureza, porque ele não consegue aceitar o fato de que é alheio ao ambiente que se transforma. Além do mais, ele criou o tempo para poder controlar os seus semelhantes, para dizer-se dono de si e da vida, para mensurar quanto pode durar uma guerra, uma corrida, uma transa, uma discussão, uma propaganda política. Quando digo que o tempo é uma invenção da humanidade e que efetivamente não existe, não estou verbalizando desvarios. – nesse instante, Moura parara de caçoar do amigo e ouvia atentamente – Minha teoria se comprova facilmente, é só me ouvir: olhe para essas paredes. Há alguns anos elas eram lindas, hoje são velhas, caindo pela ação do [que convencionalmente chamamos de] tempo. Nós deixamos nos iludirem quando afirmamos que o que fez essas paredes envelhecerem foi o tempo que passou. Não foi. O que fez essas paredes mudarem, perderem o brilho que tinham, foi a pura ação microscópica da vida! Tudo muda, segundo a segundo. É a mudança de Heráclito agindo nos dias de hoje, como se nos banhássemos nos rios da Grécia Antiga, meu nobre amigo. Entramos e saímos desse rio, com frequência, mas ele não muda porque o tempo passa. Ele muda por que é o princípio da vida. Se não houvesse a contagem do tempo, o tempo deixaria de existir em nossa mente. Nós só encaramos a temporalidade como algo real, a partir do momento que aceitamos a escravização do relógio. Ou melhor, do criador do relógio.

Os olhos de Moura estavam estralados. Perplexo com a teoria de Lúcius, tentou indagar:

-Mas como você encara tudo isso, frente às adversidades...

-Calma meus amiguinhos, trouxe um remedinho pra vocês!

A conversa foi cortada por Maria Lúcida, a enfermeira responsável pela ala idosa do Hospital Psiquiátrico Santa Cruz.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Leitura


A parte mais difícil da leitura é a última página do livro.

Na ânsia de descobrir o desfecho, o leitor se deixa levar pela típica curiosidade humana, permitindo que os obedientes olhos resvalem para as frases derradeiras. Nem sempre o desfecho é condizente com o desejado. Nem sempre a satisfação é plena.

Mas não há como esperar!

O ávido leitor sofre com a espera, e a última página é um tormento deleitoso.

Todos nós temos um pouco de “leitores de última página”. Mas alguns conseguiram perceber que a última página é a que menos importa, e agora, vivem lendo seus livros com uma tranquilidade invejável. Não esperam e não desdenham a última página; apenas leem, esperando calmamente o destino fazer o resto.

domingo, 5 de maio de 2013

Memória


A sala parecia estar vazia.

Os móveis aglomerados em um dos cantos, como se não tivessem mais utilidade. Num outro canto, algumas fotografias velhas, daquelas máquinas fotográficas antigas, em que a imagem saia instantaneamente. Uma foto tirada no dia da compra da máquina estava junto dela. Apesar de arcaica, frente às concepções tecnológicas, o instrumento tinha uma aura romântica. A foto era linda, ainda que não estivesse completa: uma das pessoas contidas na imagem tinha desaparecido. Era a figura do Jovem.

O Jovem estava sentado no centro da sala, que parecia estar vazia. O jogo de luzes provenientes das velas acesas quebrava a escuridão da meia-noite. Mas o ar sinistro de melancolia não tinha sido violado. Enquanto meditava sobre o rumo que sua vida tinha tomado, o jovem olhava para um canto da sala. O buquê de flores comprado ao amor de sua vida há muitos anos continuava lá. Nunca chegou a entregá-lo. Tinha medo. O medo é capaz de envelhecer as rosas. Sendo assim, elas ficaram lá, compondo a imagem de uma sala, que ainda parecia continuar vazia. E o Jovem seguia meditando...

Lembrou dos tempos de infância, das brincadeiras na escola, dos primeiros namoros, das brigas juvenis e dos movimentos populares que liderava na Academia. Lembrou até mesmo do dia em que seu pai lhe comprara uma polaroid. Tiraram uma foto naquele dia, todos juntos.

E a sala... vazia! Então os pensamentos do Jovem se voltaram aos dias atuais.

Silêncio. Não conseguia pensar nisso.

O que vinha acontecendo com ele nos últimos anos? Não conseguia pensar no que tinha feito nos últimos dois anos! Sua última lembrança vinha do rosto do amor de sua vida. Já não sabia mais seu nome. Já não lembrava de seu cheiro, de sua voz. Em verdade, não lembrava exatamente de seu rosto, apenas sabia que amava aquele ser que se apresentava em sua memória. Não lembrava do rosto de mais ninguém, de fato. Quando pensava em coisas boas, apenas cores vibrantes vinham à sua mente, mas quando pensava em coisas ruins, olhava ao redor e via a imagem da sala, com os móveis, a foto, as rosas. Lembrou que aquelas rosas ainda estavam lá, apodreceram lá, por que teve medo de entregar a quem tanto amava. Enquanto todos esses pensamentos vinham ao Jovem, a única porta da sala foi aberta. A sala ainda parecia estar vazia.

-Senhor Albuquerque, este é um ótimo apartamento, veja, esta sala dará um ótimo escritório.

O Jovem empalideceu, ruborizou, e por fim, entendeu que o último canto da sala era seu. Sendo assim, deixou as velas no centro e rumou para seu lugar, a última parte que faltava preencher naquela sala era seu canto. Com o Consultor de Vendas e Albuquerque, a sala não parecia mais estar vazia.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Desabafo de Colombina


As coisas estavam indo bem entre nós. Havia muito tempo que não me sentia tão feliz comigo mesma. As flores pareciam tão belas; o vento soprava belos poemas; tudo corria perfeitamente bem: eu estava perdidamente apaixonada. Não fosse o golpe impreciso e devastador do destino, nossa história ganharia o mundo, como a mais bela história de amor já contada pela humanidade. Mas quis o senhor das casualidades, que eu encontrasse pelo caminho, a figura de Arlequim.

Doce, meigo, sensato quando havia necessidade; impávido quando o horror se mostrava; apaixonado quando se dirigia a mim. Que mais poderia eu fazer? O que poderia dizer a meu velho amor? Essas coisas acontecem assim, de uma hora para outra. Não. Não poderia deixar minha cadente paixão espatifar-se no terreno das ilusões. Deveria encontrar uma saída. Mas qual?

Estava eu, tateando no escuro, procurando uma solução conivente com minha usual sagacidade, quando Arlequim apareceu à porta de minha casa. Era um sábado de Carnaval. Parei em sua frente e, antes mesmo de proferir qualquer palavra, o jovem romântico me presenteou com as mais belas flores que se pode oferecer a uma mulher. As flores foram o prelúdio do pedido de namoro. O pedido de namoro foi o prelúdio de um período de imensa indecisão.

Ora, que poderia eu fazer? Desde o momento em que vi Arlequim, ali, parado em minha frente, não conseguia pensar em outra coisa. Ou conseguia?

Pobre Pierrot... Pobre de mim.

Sim, porque eu não pensaria duas vezes antes de me atirar de uma ponte qualquer, para fazer da vida de Pierrot uma eterna alegria. Não antes de receber a visita mais do que inesperada de Arlequim. E agora, não sabia mais nem o que pensar.

Parei de trabalhar. Não conseguia arranjar concentração alguma para estudar. Consumi, dia a dia, aquela impotência causada pelo amor. Um amor que me dividia entre dois homens. Não encontrei solução alguma. As pessoas na rua me olhavam com desdém:

-Olha lá, aquela depravada que ilude os homens, e os faz de bobos... –diziam.

Ninguém sabia o que realmente acontecia. A situação começou a piorar quando a música resolveu interferir em nossa história. Difundiu-se por aí, uma versão equivocada de nosso relacionamento. Como sempre, saí como a vilã; a mulher que enganava ambos. Arlequim, como um galanteador perspicaz. Pierrot, como um apaixonado ultra-romântico.

Não havia mais forças dentro de mim para lutar contra os inconvenientes comentários a nosso respeito. Não havia mais ideias, não sabia o que fazer. Nem Arlequim, nem Pierrot. Mandei o amor às favas, e saí pelo bloco, puxando um cordão, cantando como se não houvesse amanhã:

“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
 Mais de mil palhaços no salão.
 Arlequim está chorando
 Pelo amor da Colombina
 No meio da multidão.”

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Carta


“Caro Senhor Assassino!
 

Meu nome é Anderson, tenho 12 anos, e venho por meio deste documento lhe questionar sobre um fato, que para o senhor pode não ter significado muita coisa, mas que pra mim, foi o motivo da minha tristeza, mesmo durante o desenho das sete horas. Eu gostaria de saber, qual foi o motivo para que o senhor atirasse contra o peito de meu pai, ontem à noite, sem que ele tenha feito absolutamente nada contra o senhor? Justamente meu pai, por quê? Bom, eu sei que ele não tinha muito dinheiro, mas isso nunca foi pecado. Meu pai, dizia para nossa família, que ser pobre não é defeito; que a educação que ele não teve, daria pra gente, pra que a gente fosse ‘alguém na vida’. E agora, porque o senhor atirou nele, nem ele poderá ser alguém na vida.
Justo meu pai, que era um herói? Eu sei, eu sei; já estou bem grandinho, e sei que o senhor vai dizer que todos os filhos acham que seus pais são heróis. Mas é verdade. Meu pai saia todos os dias pela manhã, trabalhava o dia inteiro, sem voltar para a casa no horário do almoço, e só retornava à noite, quando não havia mais ninguém nas ruelas de nossa comunidade. Doava todo o dinheiro que sobrava das contas, para seus quatro filhos – dos quais sou o mais velho. E agora? O que a gente vai fazer? Eu não vou estudar para ser alguém na vida, quando a vida de alguém que eu amava, já não existe. Vou trabalhar onde? Tenho uma casa para sustentar, junto com minha mãe. O senhor acabou não só com a vida de meu pai, mas com a vida de uma família harmoniosa, cheia de amor e paz. Tudo isso, para quê? Eu só preciso saber disso? Por que o senhor matou meu herói?
Assinado: Anderson, o filho de sua vítima.”
Quando o Sargento Renan terminou de ler aquela carta, deixou uma lágrima escorrer pelo canto direito de sua face. Uma única lágrima. Sentiu vergonha de viver. Sentiu vergonha de se olhar no espelho. Sentiu-se confuso. Como pode a vida ser tão injusta? Não, Sargento Renan não tinha ideia, não sabia o que pensar.

 

José Francisco dos Santos Reis, vulgo “Zé do Morro”, fora morto na noite anterior, com um tiro no peito - vindo da arma de Sargento Renan, - após resistir à prisão. Zé do Morro era um dos traficantes mais procurados do país. E, ao mesmo tempo, Zé do Morro era um grande herói. Zé do Morro era pai de Anderson.
Ninguém conhece a estrada que está caminhando. Ninguém sabe quem irá se ferir, e que ciclos podem acabar, ou renovar-se, a cada passo que damos.
Sargento Renan olhou mais uma vez para aquela carta. Uma outra lágrima caíra. Não resistiu; uma chuva torrencial inundou seus pensamentos.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ressurreição


O nome dele era Coronel Mendonça Filho. Grande estrategista militar, sempre fora considerado um dos nomes de maior importância no terreno bélico. Sua atitude ríspida, duramente agressiva, ofensiva, contrastava com seus anseios, seus sonhos. Seria impossível viver seus sonhos, do alto da torre de marfim em que Coronel Mendonça Filho vivia.

Tinha dois filhos, ambos do sexo masculino. Sempre exigira uma masculinidade exacerbada de suas crianças. Masculinidade, esta, que por vezes fora confundida com uma ideologia sexista ultrapassada, reacionária. Criara seus filhos como ideólogos machistas. Ao menos, tentara.

A carreira de Coronel Mendonça Filho fora construída durante longos e prestigiosos anos. Trinta, ao todo. Hoje, Coronel Mendonça Filho, contabiliza 20 primaveras, 5 verões, 10 outonos e 30 invernos. Não é mais nenhum menino, por assim dizer.

Seu caráter, sempre fora alvo da opinião pública. Sim, porque Coronel era uma figura pública. Considerado por muitos, o sucessor no plenário nacional, fora duramente criticado pelo telejornal das oito horas, o que era muito significativo, pois este jornal emanava opiniões que desmantelavam o nível intelectual da população. Mas em nenhum momento teve seus delitos comprovados legalmente.

Tudo estava como deveria ser na vida de Coronel Mendonça Filho. Até que um belo dia – nem tão belo assim, uma tragédia assolara a vida deste sujeito. Seus filhos, ao mesmo tempo, foram alvo de um acidente de trânsito. Veja você, tamanha ironia do destino. Mortos, vítimas de um atropelamento. Coronel Mendonça Filho perdera seus herdeiros. Os herdeiros de sua virtude. Os herdeiros de sua índole. Os herdeiros de sua fortuna.

Agora, nada mais restava na vida de Coronel Mendonça Filho.

Como se não bastasse esse fato catastrófico, Coronel sofrera imensuráveis acusações de crimes de guerra, oriundos do conflito entre Brasil (sim, por que caso não tenha notado, caro leitor, estes fatos ocorreram no Brasil) e França. Sua fortuna estava prestes a ir pelo ralo. Não obstante, nosso Oficial não via mais utilidade para sua quantia monetária exorbitante, visto sua idade avançada e falta de herdeiros. Não se importaria mais em perder seu dinheiro.

Advogados, processos, subornos. Tudo lhe roubava o ouro, conquistado a sangue, suor e retórica. Ao fim, empobrecera.

Sem vintém algum, sem filho algum, com uma mulher que não amava, o Coronel resolveu que não admitiria mais em seus restantes dias de vida, compartilhar com o mundo uma vivência desonesta e fútil. Partiria em rumo de seus sonhos, honestamente, vivendo plenamente as poucas horas vitais que lhe sobraram. Antes tarde, do que mais tarde.

Nascia, assim, Mendonça Filho.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carona


Como todos os dias de sua vida, Gilberto acordou cedo, vestiu sua roupa leve e colorida, e rumou para sua caminhada matinal. Desde que iniciou essa rotina, há setenta e cinco anos, nunca parou. Nenhum dia sequer. Era algo que lhe fazia muito bem. Saia de casa; passava pelo colégio da esquina; dava um olá para as moças da farmácia; e na volta comprava alguns pães na padaria.

Setenta e cinco anos... Setenta e cinco anos...

Não posso dizer que durante todos esses anos de caminhadas matutinas, Gilberto não tenha tido algumas “tentações” no caminho. Algumas que tentavam convencê-lo a parar de caminhar; outras que tentavam desvia-lo de sua rota. Mas nem por um segundo seu pensamento mudou. Desde o tempo em que era apenas o pequeno “Betinho”, até o dia de hoje, em que se tornara o Sr. Gilberto, sua ideia sempre fora a mesma: seguir apenas caminhando, sem olhar pra trás ou muito adiante. Mas naquele dia, Gilberto sabia que a caminhada teria outro desfecho. Depois de Setenta e Cinco anos caminhando, cativando pessoas, chorando por algumas, sacrificando-se por outras, o velho homem encontrou na estrada um carro estonteantemente belo. Um Cadilac vermelho, com um brilho divinal - desses que a gente só vê naqueles filmes antigos. De dentro dele, surgiu um homem que aparentava mais idade do que o próprio “Beto”.

- Belo carro – disse o caminhante.
- Temos gostos parecidos meu amigo – respondeu o velho – gostaria de dar uma volta?
Gilberto parou e pensou um pouco...

Setenta e cinco anos e nunca tinha aceitado uma única carona, porque iria aceitar naquele dia? Ainda mais de um completo desconhecido?

Mas algo naquele velho lhe dizia que devia entrar no carro. Foram tantos anos de caminhada, já estava na hora de voltar pra casa de uma forma mais confortável. Então, Gilberto fez sua escolha.

Depois de Setenta e Cinco anos de caminhada, ele aceitou a carona, e rumou para a sua verdadeira casa, de uma forma tranquila e confortável, para que pudesse finalmente repousar...