A sala parecia estar vazia.
Os móveis aglomerados em um dos cantos, como se não tivessem
mais utilidade. Num outro canto, algumas fotografias velhas, daquelas máquinas
fotográficas antigas, em que a imagem saia instantaneamente. Uma foto tirada no
dia da compra da máquina estava junto dela. Apesar de arcaica, frente às
concepções tecnológicas, o instrumento tinha uma aura romântica. A foto era
linda, ainda que não estivesse completa: uma das pessoas contidas na imagem
tinha desaparecido. Era a figura do Jovem.
O Jovem estava sentado no centro da sala, que parecia estar
vazia. O jogo de luzes provenientes das velas acesas quebrava a escuridão da
meia-noite. Mas o ar sinistro de melancolia não tinha sido violado. Enquanto
meditava sobre o rumo que sua vida tinha tomado, o jovem olhava para um canto
da sala. O buquê de flores comprado ao amor de sua vida há muitos anos continuava
lá. Nunca chegou a entregá-lo. Tinha medo. O medo é capaz de envelhecer as
rosas. Sendo assim, elas ficaram lá, compondo a imagem de uma sala, que ainda
parecia continuar vazia. E o Jovem seguia meditando...
Lembrou dos tempos de infância, das brincadeiras na escola,
dos primeiros namoros, das brigas juvenis e dos movimentos populares que
liderava na Academia. Lembrou até mesmo do dia em que seu pai lhe comprara uma polaroid. Tiraram uma foto naquele dia,
todos juntos.
E a sala... vazia! Então os pensamentos do Jovem se voltaram
aos dias atuais.
Silêncio. Não conseguia pensar nisso.
O que vinha acontecendo com ele nos últimos anos? Não
conseguia pensar no que tinha feito nos últimos dois anos! Sua última lembrança
vinha do rosto do amor de sua vida. Já não sabia mais seu nome. Já não lembrava
de seu cheiro, de sua voz. Em verdade, não lembrava exatamente de seu rosto,
apenas sabia que amava aquele ser que se apresentava em sua memória. Não
lembrava do rosto de mais ninguém, de fato. Quando pensava em coisas boas,
apenas cores vibrantes vinham à sua mente, mas quando pensava em coisas ruins,
olhava ao redor e via a imagem da sala, com os móveis, a foto, as rosas. Lembrou
que aquelas rosas ainda estavam lá, apodreceram lá, por que teve medo de entregar
a quem tanto amava. Enquanto todos esses pensamentos vinham ao Jovem, a única
porta da sala foi aberta. A sala ainda parecia estar vazia.
-Senhor Albuquerque, este é um ótimo apartamento, veja, esta
sala dará um ótimo escritório.
O Jovem empalideceu, ruborizou, e por fim, entendeu que o
último canto da sala era seu. Sendo assim, deixou as velas no centro e rumou
para seu lugar, a última parte que faltava preencher naquela sala era seu canto.
Com o Consultor de Vendas e Albuquerque, a sala não parecia mais estar vazia.