domingo, 5 de maio de 2013

Memória


A sala parecia estar vazia.

Os móveis aglomerados em um dos cantos, como se não tivessem mais utilidade. Num outro canto, algumas fotografias velhas, daquelas máquinas fotográficas antigas, em que a imagem saia instantaneamente. Uma foto tirada no dia da compra da máquina estava junto dela. Apesar de arcaica, frente às concepções tecnológicas, o instrumento tinha uma aura romântica. A foto era linda, ainda que não estivesse completa: uma das pessoas contidas na imagem tinha desaparecido. Era a figura do Jovem.

O Jovem estava sentado no centro da sala, que parecia estar vazia. O jogo de luzes provenientes das velas acesas quebrava a escuridão da meia-noite. Mas o ar sinistro de melancolia não tinha sido violado. Enquanto meditava sobre o rumo que sua vida tinha tomado, o jovem olhava para um canto da sala. O buquê de flores comprado ao amor de sua vida há muitos anos continuava lá. Nunca chegou a entregá-lo. Tinha medo. O medo é capaz de envelhecer as rosas. Sendo assim, elas ficaram lá, compondo a imagem de uma sala, que ainda parecia continuar vazia. E o Jovem seguia meditando...

Lembrou dos tempos de infância, das brincadeiras na escola, dos primeiros namoros, das brigas juvenis e dos movimentos populares que liderava na Academia. Lembrou até mesmo do dia em que seu pai lhe comprara uma polaroid. Tiraram uma foto naquele dia, todos juntos.

E a sala... vazia! Então os pensamentos do Jovem se voltaram aos dias atuais.

Silêncio. Não conseguia pensar nisso.

O que vinha acontecendo com ele nos últimos anos? Não conseguia pensar no que tinha feito nos últimos dois anos! Sua última lembrança vinha do rosto do amor de sua vida. Já não sabia mais seu nome. Já não lembrava de seu cheiro, de sua voz. Em verdade, não lembrava exatamente de seu rosto, apenas sabia que amava aquele ser que se apresentava em sua memória. Não lembrava do rosto de mais ninguém, de fato. Quando pensava em coisas boas, apenas cores vibrantes vinham à sua mente, mas quando pensava em coisas ruins, olhava ao redor e via a imagem da sala, com os móveis, a foto, as rosas. Lembrou que aquelas rosas ainda estavam lá, apodreceram lá, por que teve medo de entregar a quem tanto amava. Enquanto todos esses pensamentos vinham ao Jovem, a única porta da sala foi aberta. A sala ainda parecia estar vazia.

-Senhor Albuquerque, este é um ótimo apartamento, veja, esta sala dará um ótimo escritório.

O Jovem empalideceu, ruborizou, e por fim, entendeu que o último canto da sala era seu. Sendo assim, deixou as velas no centro e rumou para seu lugar, a última parte que faltava preencher naquela sala era seu canto. Com o Consultor de Vendas e Albuquerque, a sala não parecia mais estar vazia.

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