domingo, 10 de fevereiro de 2013

Desabafo de Colombina


As coisas estavam indo bem entre nós. Havia muito tempo que não me sentia tão feliz comigo mesma. As flores pareciam tão belas; o vento soprava belos poemas; tudo corria perfeitamente bem: eu estava perdidamente apaixonada. Não fosse o golpe impreciso e devastador do destino, nossa história ganharia o mundo, como a mais bela história de amor já contada pela humanidade. Mas quis o senhor das casualidades, que eu encontrasse pelo caminho, a figura de Arlequim.

Doce, meigo, sensato quando havia necessidade; impávido quando o horror se mostrava; apaixonado quando se dirigia a mim. Que mais poderia eu fazer? O que poderia dizer a meu velho amor? Essas coisas acontecem assim, de uma hora para outra. Não. Não poderia deixar minha cadente paixão espatifar-se no terreno das ilusões. Deveria encontrar uma saída. Mas qual?

Estava eu, tateando no escuro, procurando uma solução conivente com minha usual sagacidade, quando Arlequim apareceu à porta de minha casa. Era um sábado de Carnaval. Parei em sua frente e, antes mesmo de proferir qualquer palavra, o jovem romântico me presenteou com as mais belas flores que se pode oferecer a uma mulher. As flores foram o prelúdio do pedido de namoro. O pedido de namoro foi o prelúdio de um período de imensa indecisão.

Ora, que poderia eu fazer? Desde o momento em que vi Arlequim, ali, parado em minha frente, não conseguia pensar em outra coisa. Ou conseguia?

Pobre Pierrot... Pobre de mim.

Sim, porque eu não pensaria duas vezes antes de me atirar de uma ponte qualquer, para fazer da vida de Pierrot uma eterna alegria. Não antes de receber a visita mais do que inesperada de Arlequim. E agora, não sabia mais nem o que pensar.

Parei de trabalhar. Não conseguia arranjar concentração alguma para estudar. Consumi, dia a dia, aquela impotência causada pelo amor. Um amor que me dividia entre dois homens. Não encontrei solução alguma. As pessoas na rua me olhavam com desdém:

-Olha lá, aquela depravada que ilude os homens, e os faz de bobos... –diziam.

Ninguém sabia o que realmente acontecia. A situação começou a piorar quando a música resolveu interferir em nossa história. Difundiu-se por aí, uma versão equivocada de nosso relacionamento. Como sempre, saí como a vilã; a mulher que enganava ambos. Arlequim, como um galanteador perspicaz. Pierrot, como um apaixonado ultra-romântico.

Não havia mais forças dentro de mim para lutar contra os inconvenientes comentários a nosso respeito. Não havia mais ideias, não sabia o que fazer. Nem Arlequim, nem Pierrot. Mandei o amor às favas, e saí pelo bloco, puxando um cordão, cantando como se não houvesse amanhã:

“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
 Mais de mil palhaços no salão.
 Arlequim está chorando
 Pelo amor da Colombina
 No meio da multidão.”

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