As coisas estavam indo bem entre nós. Havia muito tempo que não me
sentia tão feliz comigo mesma. As flores pareciam tão belas; o vento soprava
belos poemas; tudo corria perfeitamente bem: eu estava perdidamente apaixonada.
Não fosse o golpe impreciso e devastador do destino, nossa história ganharia o
mundo, como a mais bela história de amor já contada pela humanidade. Mas quis o
senhor das casualidades, que eu encontrasse pelo caminho, a figura de Arlequim.
Doce, meigo, sensato quando havia necessidade; impávido quando o horror
se mostrava; apaixonado quando se dirigia a mim. Que mais poderia eu fazer? O
que poderia dizer a meu velho amor? Essas coisas acontecem assim, de uma hora
para outra. Não. Não poderia deixar minha cadente paixão espatifar-se no
terreno das ilusões. Deveria encontrar uma saída. Mas qual?
Estava eu, tateando no escuro, procurando uma solução conivente com
minha usual sagacidade, quando Arlequim apareceu à porta de minha casa. Era um
sábado de Carnaval. Parei em sua frente e, antes mesmo de proferir qualquer
palavra, o jovem romântico me presenteou com as mais belas flores que se pode
oferecer a uma mulher. As flores foram o prelúdio do pedido de namoro. O pedido
de namoro foi o prelúdio de um período de imensa indecisão.
Ora, que poderia eu fazer? Desde o momento em que vi Arlequim, ali,
parado em minha frente, não conseguia pensar em outra coisa. Ou conseguia?
Pobre Pierrot... Pobre de mim.
Sim, porque eu não pensaria duas vezes antes de me atirar de uma ponte
qualquer, para fazer da vida de Pierrot uma eterna alegria. Não antes de
receber a visita mais do que inesperada de Arlequim. E agora, não sabia mais
nem o que pensar.
Parei de trabalhar. Não conseguia arranjar concentração alguma para
estudar. Consumi, dia a dia, aquela impotência causada pelo amor. Um amor que
me dividia entre dois homens. Não encontrei solução alguma. As pessoas na rua
me olhavam com desdém:
-Olha lá, aquela depravada que ilude os homens, e os faz de bobos... –diziam.
Ninguém sabia o que realmente acontecia. A situação começou a piorar
quando a música resolveu interferir em nossa história. Difundiu-se por aí, uma
versão equivocada de nosso relacionamento. Como sempre, saí como a vilã; a
mulher que enganava ambos. Arlequim, como um galanteador perspicaz. Pierrot,
como um apaixonado ultra-romântico.
Não havia mais forças dentro de mim para lutar contra os inconvenientes
comentários a nosso respeito. Não havia mais ideias, não sabia o que fazer. Nem
Arlequim, nem Pierrot. Mandei o amor às favas, e saí pelo bloco, puxando um
cordão, cantando como se não houvesse amanhã:
“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão.
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão.”
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