“Caro Senhor Assassino!
Meu nome é Anderson, tenho 12 anos, e venho por meio deste documento
lhe questionar sobre um fato, que para o senhor pode não ter significado muita
coisa, mas que pra mim, foi o motivo da minha tristeza, mesmo durante o desenho
das sete horas. Eu gostaria de saber, qual foi o motivo para que o senhor
atirasse contra o peito de meu pai, ontem à noite, sem que ele tenha feito
absolutamente nada contra o senhor? Justamente meu pai, por quê? Bom, eu sei
que ele não tinha muito dinheiro, mas isso nunca foi pecado. Meu pai, dizia
para nossa família, que ser pobre não é defeito; que a educação que ele não
teve, daria pra gente, pra que a gente fosse ‘alguém na vida’. E agora, porque
o senhor atirou nele, nem ele poderá ser alguém na vida.
Justo meu pai, que era um herói? Eu sei, eu sei; já estou bem
grandinho, e sei que o senhor vai dizer que todos os filhos acham que seus pais
são heróis. Mas é verdade. Meu pai saia todos os dias pela manhã, trabalhava o
dia inteiro, sem voltar para a casa no horário do almoço, e só retornava à
noite, quando não havia mais ninguém nas ruelas de nossa comunidade. Doava todo
o dinheiro que sobrava das contas, para seus quatro filhos – dos quais sou o
mais velho. E agora? O que a gente vai fazer? Eu não vou estudar para ser
alguém na vida, quando a vida de alguém que eu amava, já não existe. Vou
trabalhar onde? Tenho uma casa para sustentar, junto com minha mãe. O senhor
acabou não só com a vida de meu pai, mas com a vida de uma família harmoniosa,
cheia de amor e paz. Tudo isso, para quê? Eu só preciso saber disso? Por que o
senhor matou meu herói?
Assinado: Anderson, o filho de sua vítima.”
Quando o Sargento Renan terminou de ler aquela carta, deixou uma
lágrima escorrer pelo canto direito de sua face. Uma única lágrima. Sentiu
vergonha de viver. Sentiu vergonha de se olhar no espelho. Sentiu-se confuso.
Como pode a vida ser tão injusta? Não, Sargento Renan não tinha ideia, não
sabia o que pensar.
José Francisco dos Santos Reis, vulgo “Zé do Morro”, fora morto na
noite anterior, com um tiro no peito - vindo da arma de Sargento Renan, - após
resistir à prisão. Zé do Morro era um dos traficantes mais procurados do país. E,
ao mesmo tempo, Zé do Morro era um grande herói. Zé do Morro era pai de
Anderson.
Ninguém conhece a estrada que está caminhando. Ninguém sabe quem irá se
ferir, e que ciclos podem acabar, ou renovar-se, a cada passo que damos.
Sargento Renan olhou mais uma vez para aquela carta. Uma outra lágrima
caíra. Não resistiu; uma chuva torrencial inundou seus pensamentos.
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