sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Carta


“Caro Senhor Assassino!
 

Meu nome é Anderson, tenho 12 anos, e venho por meio deste documento lhe questionar sobre um fato, que para o senhor pode não ter significado muita coisa, mas que pra mim, foi o motivo da minha tristeza, mesmo durante o desenho das sete horas. Eu gostaria de saber, qual foi o motivo para que o senhor atirasse contra o peito de meu pai, ontem à noite, sem que ele tenha feito absolutamente nada contra o senhor? Justamente meu pai, por quê? Bom, eu sei que ele não tinha muito dinheiro, mas isso nunca foi pecado. Meu pai, dizia para nossa família, que ser pobre não é defeito; que a educação que ele não teve, daria pra gente, pra que a gente fosse ‘alguém na vida’. E agora, porque o senhor atirou nele, nem ele poderá ser alguém na vida.
Justo meu pai, que era um herói? Eu sei, eu sei; já estou bem grandinho, e sei que o senhor vai dizer que todos os filhos acham que seus pais são heróis. Mas é verdade. Meu pai saia todos os dias pela manhã, trabalhava o dia inteiro, sem voltar para a casa no horário do almoço, e só retornava à noite, quando não havia mais ninguém nas ruelas de nossa comunidade. Doava todo o dinheiro que sobrava das contas, para seus quatro filhos – dos quais sou o mais velho. E agora? O que a gente vai fazer? Eu não vou estudar para ser alguém na vida, quando a vida de alguém que eu amava, já não existe. Vou trabalhar onde? Tenho uma casa para sustentar, junto com minha mãe. O senhor acabou não só com a vida de meu pai, mas com a vida de uma família harmoniosa, cheia de amor e paz. Tudo isso, para quê? Eu só preciso saber disso? Por que o senhor matou meu herói?
Assinado: Anderson, o filho de sua vítima.”
Quando o Sargento Renan terminou de ler aquela carta, deixou uma lágrima escorrer pelo canto direito de sua face. Uma única lágrima. Sentiu vergonha de viver. Sentiu vergonha de se olhar no espelho. Sentiu-se confuso. Como pode a vida ser tão injusta? Não, Sargento Renan não tinha ideia, não sabia o que pensar.

 

José Francisco dos Santos Reis, vulgo “Zé do Morro”, fora morto na noite anterior, com um tiro no peito - vindo da arma de Sargento Renan, - após resistir à prisão. Zé do Morro era um dos traficantes mais procurados do país. E, ao mesmo tempo, Zé do Morro era um grande herói. Zé do Morro era pai de Anderson.
Ninguém conhece a estrada que está caminhando. Ninguém sabe quem irá se ferir, e que ciclos podem acabar, ou renovar-se, a cada passo que damos.
Sargento Renan olhou mais uma vez para aquela carta. Uma outra lágrima caíra. Não resistiu; uma chuva torrencial inundou seus pensamentos.

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