Os espelhos estavam voltados para as estradas da cidade de Outrora. Todo domingo
Ofélia virava os seis espelhos de sua casa para a rua. Ninguém, absolutamente
ninguém sabia o motivo. Alguns, mais perspicazes, ousavam especular...
Enfim...
Imagine, você andando tranquilamente pela estrada de chão batido, quando
de repente, não mais que de repente, se depara com a imagem mais horripilante
que possa ser concebida pela mente humana. Sim, os espelhos estavam voltados
para a rua. Ofélia era, sem dúvida, a mulher mais maligna que a cidade de
Outrora já conhecera. E não havia nada a ser feito. Ora bolas, a polícia local
tentou de tudo: balas de canhão, bombas de hidrogênio, e armamentos bélicos
jamais vistos, nem mesmo em Outrora. Os espelhos não quebravam de jeito algum.
Magia? Alquimia?

Sei não, havia algo de muito estranho naquela mulher.
O que sempre me incomodou naquele ser odioso, – veja bem, refiro-me à OFÉLIA-
é que seus surtos psicopáticos
aconteciam apenas nos domingos. Nos outros dias da semana, Ofélia agia como uma
perfeita mulher de Outrora. Mantinha-se calma, submissa, obediente aos bons
costumes e, jamais relava seus calejados dedos sobre os amaldiçoados espelhos.
Que tinha aquela mulher? Que vozes lhe ordenavam repudiar os bons costumes e
reverter sua normalidade em ousadia repreensiva? Quem era aquela mulher para
apresentar ao mundo imagens tão devastadoras?
Ouviu-se dizer, que um dia desses, Outrora havia sido invadida por uma
tropa distinta, vinda diretamente de Lugar Algum. Esses rebeldes enrustidos fantasiavam-se
de nobres senhores, apoiados sob a retórica social, e desfilavam asneiras em
praças públicas. Certa feita, pernoitaram na residência de Ofélia. Ao
amanhecer, diziam querer libertá-la dos grilhões de Outrora, e conduzi-la à
Lugar Algum.
Que desrespeito! Uma mulher exemplar, corrompida por estes arruaceiros. A
partir daí, aquela casa nuca mais fora a mesma. Doravante, todos os domingos
seriam de extremo pavor para os transeuntes da cidade.
Aquelas ruas nunca mais foram as mesmas.
Quando a semana anunciava o crepúsculo, todos temiam passar em frente à
casa da louca dos espelhos. Enquanto isso, Ofélia sonhava. Sonhava com Lugar
Algum.
Exceto nos outros dias, quando se tornava a mulher exemplar.
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